Encontro 2

 

 

Salomão Jésus Alves Costa, 21 anos, artista circense em formação no curso técnico em Artes Circenses do Centro Interescolar de Cultura, Arte, Linguagens e Tecnologias na cidade de Belo Horizonte. Desenvolve suas investigações artísticas a partir da manipulação de objetos e equilibrismos corporais em diálogo com as Artes Visuais. É integrante do Coletivo Mambus (BH/MG) onde desenvolve um trabalho de manipulação de objetos nos estilos clássico e  experimental. @salomaojesuss

Conteúdos da conversa: Negritude, representatividade e autoralidade nas Artes do Circo em Belo Horizonte.

 

Entrevista:

  1. Consegue estabelecer uma cartografia sobre a sua trajetória artística a partir de percepções do seu fazer circense?

CartografiaTrajetoriaArtitisca

 

2. Onde (território) se percebeu artista?

Em um espaço chamado Casa Kolping, da Comunidade Rainha da Paz na região Justinópolis, onde resido. Lá fiz parte do curso de Desenho Artístico por 2 anos (2008 a 2010) e cheguei a conquistar a certificação, só que não tive tanta motivação para seguir com a profissão, tanto financeira quanto moral. A vontade do pensa-fazer reacendeu quando participei da formação em Artes Visuais.

 

3. Qual foi o seu primeiro contato com a linguagem circense e quando se percebeu como um artista-criador das Artes do Circo?

O primeiro contato veio através do espetáculo Alegría da companhia circense canadense Cirque du Soleil. Assisti por DVD em família quando criança. Não lembro com exatidão minha idade, mas foi marcante o suficiente para lembrar até hoje.

Percebi-me artista-criador em junho de 2019, durante uma aula de Malabarismos II lecionada pela professora-coordenadora Luana Coelho Gomes (coordenação 201-2019), em que a proposição era criar uma partitura de movimentos com três objetos. Encaixei uma bolinha no meu Black Power e executei inúmeras ações. A bolinha permaneceu lá e comecei a pensar em mais hipóteses a partir disso. Nunca mais parei, até então.

 

4. Como define negritude nos discursos artísticos?

Conduzindo-me na asserção de que ser é força ancestral. Hoje entendo e busco cada vez mais formas de processar minha ancestralidade, construindo visibilidade e representatividade nas artes e também no circo.

“Tem um caráter ideológico, político e cultural. No terreno político, negritude serve de subsídio para a ação do movimento negro organizado. No campo ideológico, negritude pode ser entendida com processo de aquisição de uma consciência racial. Já na esfera cultural, negritude é a tendência  de valorização de toda manifestação cultural de matriz africana.” DOMINGUES, 2005.

 

5. Como estabelece o seu fazer circense e as relações étnico-raciais na contemporaneidade?

No aprofundamento de enegrecer minha vida e pesquisa. Destruir a formatividade não negra e européia. Minha herança cultural é imensurável e às vezes até indescritível. Só que historicamente sofreu violência, repressão, apropriação e subversão. E infelizmente ainda existem muitas tentativas de se apagar a ancestralidade e raízes africanas.

“Passando por essa problematização, invariavelmente, nos damos conta das lacunas resultantes de intencional descaso, da legitimação da herança negroafricana em nossa formação. Nesse sentido, inscrever-se artisticamente em negro requer, entre tantas coisas, a disposição para a busca, combate e descoberta.” TAVARES,2017.

 

6. Você tem referenciais de artistas circenses negros? Se sim, quem são elas/eles?

Benjamin Chaves, (Pará de Minas, 11 de junho de 1870 — Rio de Janeiro, 30 de maio de 1954) mais conhecido como Benjamin de Oliveira, foi um artista, compositor, cantor, ator e palhaço de circo brasileiro. Ele é mais conhecido por ser o primeiro palhaço negro do Brasil. Além de ser o idealizador e criador do primeiro circo-teatro.

Maria Elisa Alves dos Reis (Minas Gerais, São Paulo ,1904 – ?) Filha do artista e empresário de circo João Alves e da uruguaia Brígida Echeverria. Foi alfabetizada no circo com professor particular e tornou-se “palhaço” por acaso, ao se vestir de homem em uma época em que as mulheres não desempenhavam este papel no picadeiro. Adotando o nome de Xamego costumava participar das entradas e comédias em dupla com o pai, executando os números de forma errada e assim provocando risos na plateia.

João Alves da Silva, (São João del-Rei, 1871 – 1954) proprietário do grande Circo Teatro Guarany, assumindo a frente da maior manifestação artística popular das terras brasileiras na época.

Eduardo Sebastião das Neves (1874-1919), que, descendente de escravizados, se tornou artista no período pós-abolição, enfrentando o preconceito e as dificuldades da época para defender sua arte. Também conhecido como Dudu das Neves, Palhaço Negro, Diamante Negro e “Crioulo Dudu”, Neves atuou como palhaço de circo, poeta, compositor e principalmente cantor de lundus. Foi o primeiro cantor negro a gravar um disco para a indústria fonográfica do Brasil, na primeira década do século XX.

PROT{AGÔ}NISTAS, (SP 2019): Artistas em sintonia numa dramaturgia de celebração à Negritude da Diáspora Brasileira – Movimento Negro no Picadeiro.

Assim como todos os primeiros negros de qualquer que seja a especialidade no circo. Se não fossem eles para marcar história e romper com os estereótipos e construções impostas sobre nossos corpos, o movimento de ascensão talvez não existisse. Falar dos antepassados é legitimar cada vez mais o discurso. Há também muitos artistas circenses negros na atualidade que admiro bastante e citaria um a um, mas não consigo contatar a todos para conhecer mais de seus trabalhos. Entendo com firmeza o quanto é político e necessário para o povo preto, fazer arte.

 

7. Você considera as suas criações artísticas autorais? Qual foi o processo artístico que desenvolveu que mais se aproximou da sua corporalidade? Se considera um artista-pesquisador?

Sim! O meu primeiro trabalho solo ainda está em construção. O processo está se tornando cada vez mais prazeroso há medida que descubro mais referências desse vasto mundo artístico. Em relação a corporalidade, estou investigando a relação com a manipulação de objetos, movimentos codificados da acrobacia de solo e equilíbrio. Sempre em busca de sentir o meu corpo em evolução e diálogo com o auto cuidado.

Sim, me considero um artista-pesquisador. Entendo que meu corpo é político e o circo sempre comunica com política. Além disso, ao se aliar as artes circenses com ás vivências pessoais, a dramaturgia amplia as possibilidades de criação.

Tudo isso requer, sobretudo bastante pesquisa, dos que vieram antes de mim, os que estão na mesma caminhada, os que foram interrompidos na caminhada seja lá por qual for o motivo e de como sou afetado e posso organizar tudo isso em palavras e também no corpo. Estabelecer sentido para minha pesquisa também é um ponto importante na composição. Ainda estou no início da jornada que é trabalhar e viver com essa profusão de informação.

 

Referências citadas por Salomão

DOMINGUES, Petrônio. Movimento  da  negritude. Uma breve  reconstrução  histórica. Mediações   –  Revista  de  Ciências Sociais, Londrina, v. 10, n.1, jan.-jun. 2005. p.194.

TAVARES, Lima Evani. Poéticas e processos criativos em artes cênicas: algumas notas a respeito da inscrita negra na cena. Repertório, Salvador, ano 20, n. 29, 2017. p. 105-119.

 

SALOMÃO jÉSUSCriação: Salomão Jésus